



por Bia Coslovsky
Um prato se apoia no pote acima do copo e abaixo da xícara. De um lado, uma grande vasilha sustenta o peso do equilíbrio. Ainda assim, a torre balança, demanda atenção. Os talheres estão lá, em algum lugar do meio. A sobra d’água pinga ou acumula onde restam contornos e concavidades. As coisas paradas se encostam, se esbarram e se enlaçam na descoberta de algo novo.
Certa vez, um cavalo lhe encarou. Mascava uma grama seca em um cercado próximo. Por longos minutos, compartilharam uma imanência. E só. Me disse também que as borboletas voam em pequenas hesitações. Suas asas, indecisas¹, passeiam pelos caminhos do acaso. São seres procurantes, interessados na dúvida. Encontram alimento nas curvas mais inesperadas.
Mateu Velasco é um artista tropeçante. Também come pelas beiradas. Escuta pela metade, guarda a palavra que sobrou de outra coisa, apaga e desfaz o que já tinha decidido, aproxima as cores menos óbvias. Desenha de um lado, depois do outro, aumenta uma imagem enquanto a outra diminui.
Admira miudezas, se debruça sobre as banalidades. Faz inventário, quimera, da própria fabulação. Estica o tempo para ver o tempo passar. Interrompe as certezas e rejeita os roteiros, pinta tudo que encontra na metade do caminho. Só procura as suas bordas para refazê-las - quer transbordar no mundo.
Assim, toma a pintura para além do quadro. Deposita nas paredes, suas quinas e rodapés, os pedaços deste imaginário: cacos de vaso e de louça, troncos e folhas de árvores, rabiscos, projetos de uma margem ou horizonte, experimentos de cor. Junta os elementos para ver o que acontece. Dá um nó no espaço e faz dele o processo.
Agora, mais que nunca, precisamos tropeçar. O tropeço é a abertura ao risco, um convite ao novo, o desmanche do que se cristaliza sem questionamento. A instabilidade é uma via de organização experimental, e, por isso, se faz tão necessária. O esbarrão é um encontro muito antes de ser obstáculo. E é apenas na dissolução de uma borda que outra pode nascer.
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¹ Imagem poética do poema “A Caminhada” de Friederich Schiller (1795), posteriormente explorada por autores como Walter Benjamin e Byung-Chul Han.

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SOBRE MATEU VELASCO
Mateu Velasco formou-se em Desenho Industrial pela PUC-Rio em 2003 e é mestre em Design Gráfico pela mesma universidade. Começou a trabalhar profissionalmente como ilustrador em 1999. Expandiu sua atuação pintando murais públicos no início dos anos 2000, desenvolvendo uma linguagem própria como artista visual.
A arte de Mateu revela uma realidade que vivemos e não percebemos, ativando nossa memória e sensibilidade através de sua poética crítica e
conceitual. Repletos de referências do cotidiano urbano, seus trabalhos sinalizam uma insistente necessidade de humanização da cidade que capturam o espectador e o transporta para um mundo de superposições e signos gráficos recortados de elementos do mundo real com caráter lúdico. Ao longo dessa jornada, ele colecionou imagens de sua vida diária, transformando-as em desenhos, esboços, rabiscos e vários gráficos. A junção de cada fragmento constitui o fio condutor de seu processo criativo, convidando o espectador a novas possibilidades de narrativas visuais e poéticas.

SOBRE BEATRIZ COSLOVSKY
Beatriz Coslovsky é historiadora da arte, poeta, artista e curadora, formada pela Universidade de Essex, no Reino Unido. Atuou por três anos como pesquisadora no Instituto Tunga, onde esteve à frente da catalogação dos inéditos cadernos do artista. Também colaborou com A Gentil Carioca como arquivista e vendedora, participando de feiras nacionais e internacionais junto à galeria.
Atualmente, integra a equipe da Athena e é mestranda na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde desempenha pesquisa sobre o abjeto erótico na escultura contemporânea, considerando, em especial, o trabalho de artistas mulheres.


Abertura | 07 de novembro de 2026
Visitação | de 10 de novembro de 2026 a 5 de dezembro de 2026
Opening | November 7th, 2026
On view | from November 7th, 2026 to December 5th, 2026
DIREÇÃO direction
Ricardo Kimaid Jr.
TEXTO text
Beatriz Coslovsky
ILUMINAÇÃO lightning design
Antônio Mendel
PRODUÇÃO production
Ana Júlia Putini, Juliana Kfuri, Lorena Kock, Luiza Ramalho e Ricardo Kimaid Jr.
MONTAGEM assembly
William Reis
FOTOGRAFIA photography
Mateu Velasco e Sher Santos
SINALIZAÇÃO signage
Sérgio Gouvea
IDENTIDADE VISUAL design
Mateu Velasco e Luiza Ramalho
VÍDEO E EDIÇÃO video and video editing
Filipe Porto
REALIZAÇÃO execution
Galeria Movimento
APOIO support
Stella Artois
Rei do Mate
















