BRUNO MIGUEL

FORA DE CONTEXTO
Curadoria: Benjamin Moreh
16|05|26 - 20|06|26
"O que há, pois, num nome?
Aquilo a que chamamos rosa,
mesmo com outro nome,
cheiraria igualmente bem."
Romeu e Julieta, William Shakespeare
Em “Fora de Contexto” Bruno Miguel retorna à Pop Art, estilo que desde o começo de sua carreira norteia estratégias e soluções estéticas. Partindo do marco fundamental da arte contemporânea, em que Marcel Duchamp nomeia de “A Fonte” (1917) um urinol de porcelana invertido e o assina como "R. Mutt". Ao submeter esse objeto industrial pronto (ready-made) a uma exposição, Duchamp desafiou a definição de arte, argumentando que a intenção do artista e o contexto são mais importantes que a habilidade manual. Bruno usa a mesma tática de renomear imagens retiradas de outros contextos (porém sem abrir mão do fazer manual). Aqui o artista se apropria de imagens de histórias em quadrinhos, de animações e de manuais de ilustração para, (retirando-as das narrativas originais) oferecer através dos títulos das obras, uma outra possibilidade de leitura para as imagens, uma chance de comentar com humor, ironia e leveza as questões geopolíticas, sociocomportamentais e econômicas dos nossos tempos aproximando a história da arte das dinâmicas de comunicação das redes sociais, dos memes e das figurinhas de whatsapp.
O que estamos vivendo hoje com a cultura do meme é, em essência, a "Fase 2" da lógica da Pop Art, mas operando em uma velocidade e escala que Roy Lichtenstein ou Andy Warhol não poderiam prever. A conexão entre o gesto de Duchamp em 1917 e o surgimento da Pop Art na década de 1950/60 é o que consolida a transição da arte moderna para a pós-modernidade. Se Duchamp abriu a porta para o objeto comum, a Pop Art o transformou em ícone. A imagem é o objeto encontrado. Essa conexão permite mostrar que a pintura pop (como a de Lichtenstein) não é "desenho animado na tela", mas sim a aplicação da lógica do ready-made sobre a imagem técnica.
Lichtenstein não inventava a imagem, ele a isolava. Ele pegava um quadrinho de guerra ou romance, ampliava e retirava do contexto original, forçando o espectador a focar na carga dramática ou na banalidade daquela única imagem. O meme funciona exatamente assim. Pegamos um "frame" de um filme, uma foto de celebridade ou um desenho e o isolamos do seu fluxo narrativo original. Bruno estuda, compreende e remixa essas estratégias, focando na relação metafórica e sarcástica entre imagem e título.
Para compreender a técnica que Miguel desenvolveu para estas pinturas é necessário entender as técnicas utilizadas nos contextos originais. Os pontos Ben-Day são uma técnica de impressão comercial desenvolvida no final do século XIX por Benjamin Henry Day Jr., popularizada na metade do século XX em histórias em quadrinhos e pela Pop Art. Consistem na aplicação de pequenos pontos coloridos (ciano, magenta, amarelo e preto) que, ao variar de tamanho e espaçamento, criam sombreamento, texturas e cores secundárias. Mas nas obras apresentadas em “Fora de Contexto”, Bruno conecta essa técnica com o pontilhismo de Seurat e com o dripping de Pollock. Impressão vira pintura. A falsa simplicidade da cor em suas obras quando vistas de longe, é ressignificada com a aproximação do espectador. Cada área cromática dessas pinturas é constituída por milhares de micro gotículas pingadas de cores variadas. Uma superfície complexa carregada de texturas e contrastes. Bruno Miguel desenvolveu e aprimorou por cerca de um ano e meio, uma técnica que mistura resina de poliéster, pigmentos, tinta acrílica, tinta a óleo e em spray. O resultado é uma superfície pictórica rica de leituras e cheia de mistério sobre como foram conduzidos os processos.
A Pop Art legitimou o quadrinho, considerado subliteratura, como "High Art". Bruno explora essa arqueologia da imagem pop e essa ambiguidade entre as ditas alta e baixa cultura. Em nossas conversas em seu atelier, ele sempre reforça como se tornou pintor graças a essa influência. Ter sido um consumidor de HQs desde a infância naturalizou a leitura e a consequente comunicação através de imagens. As saudosas bancas de jornal foram espaço de desejo e polo potencializador de referências estético-conceituais na formação de sua identidade artística. Aspecto que ele acredita ter sido fundamental para inúmeros pintores de sua geração.
Do mesmo jeito que as novas tecnologias revolucionaram a indústria cultural, os quadrinhos acompanharam esse movimento. A Marvel, a Disney e outras marcas de cultura POP viraram universos projetados para a fidelização do consumo. Cinema, streamings, games, colecionáveis, cosplays, feiras e eventos, e por aí vai. Por que a arte contemporânea não refletiria de maneira crítica essas dinâmicas e referências? Por que não se apropriar da linguagem das redes? Como relacionar a história da arte, que demanda tempo de consolidação e legitimação, com a viralização e a obsolescência de relevância dos memes? O meme hoje é matéria-prima para a arte, mas o pintor sempre vai esbarrar na demanda de tempo para produzir e consolidar sua pintura-pesquisa e a insanidade de tentar acompanhar a velocidade da Inteligência artificial e das redes. Hoje, vemos a pintura contemporânea (e até o mercado de NFTs ou instalações) se apropriando da estética do meme. O meme é o "baixo repertório" que, ao ser transposto para a tela de pintura, como em muitos artistas da nova geração, ganha um status de comentário antropológico. Mesma dinâmica utilizada pela Pop Art com os quadrinhos décadas atrás.
Pintar um meme é um ato de resistência contra a velocidade da internet. É usar a técnica lenta da pintura para dar peso e duração a algo que duraria 24 horas nos stories. O remix é engrenagem da produção de conteúdo e arte na contemporaneidade. Isso não é apenas uma escolha de assunto, é uma tentativa de congelar o instantâneo e o Zeitgeist (espírito da época). Porém, mais profundo que isso, é entender a dinâmica e, em vez de pintar a imagem da internet, empregá-la como a inteligência artificial faz. Utilizar o que já foi pensado, escrito, pintado e produzido no nosso passado, presente e os futuros cinco minutos para construir uma linha de raciocínio artística. O fazer e o pensar seguem divinos enquanto humanos. Diferente de uma nova geração de pintores, Bruno Miguel não pinta as imagens dos memes. Ele estuda essa dinâmica para reproduzir o modelo de pensamento por trás disso em sua pesquisa.




