VIVIANE TEIXEIRA

Entre Penas e Plumas, O Olho de Deus
Texto crítico: Anna Bella Geiger
03|09|25 - 04|10|25
A pintora Viviane Teixeira intitulou sua próxima exposição de Entre Penas e Plumas, o olho de Deus.
São pinturas densas que parecem querer se desgarrar da tela, assim como os seres ali representados — pássaros com suas garras, árvores desenraizadas, ambos ascendendo ao céu, ou pelo menos provando que são capazes dessa façanha.
Tudo é pintura. Tudo revela uma solução estética desconhecida. Tudo isso, em Viviane, é o resultado de inúmeras pinceladas, algumas acumuladas e outras rarefeitas, que se transformam em penas e asas de pássaros, e por vezes, em pétalas de flores.
O resultado não é apenas uma espontaneidade criativa ou a visão de uma arte ingênua. São visões arquetípicas que trazem um significado para o nosso atual momento contemporâneo.
Em 1972, houve um grupo de artistas internacionais que se autodenominou de Outsiders na arte, e incluiu Paul Klee, artista dos anos 1940, nessa denominação.
Sempre houve, na cultura brasileira, uma peculiaridade no sentido de seu constante contato com manifestações consideradas “primitivas”, ingênuas ou populares. Essa necessidade de busca da própria origem, volta a ser uma questão acentuada neste nosso mundo global. E vem influenciando nossos artistas, incluindo os povos originários e os de origem afrodescendente.
A nossa influência cultural maior e mais duradoura ainda tem sido o reconhecimento da cultura ocidental. Nela mesma, artistas como Picasso, foram influenciados pela arte africana. Ele, não como um etnólogo, mas numa certa comparação estética das identidades entre máscaras e esculturas da África e da Oceania, que aplicou na própria obra.
Assim como Klee na sua obra gráfica buscou arquétipos de origem oriental na arte gráfica primitiva do Oriente. Antes de ser uma coleção de regras técnicas e estilísticas, é o resultado de uma análise introspectiva na qual ele se engajou durante o seu trabalho.
Foi a psicanálise de Freud, no início do século XX, que trouxe o conhecimento da existência de um inconsciente individual, que originou essa busca nas artes.
Também encontrei, na arte Naïf, algum paralelo com as pinturas de Viviane. Cores que pretendem evocar mais os sentimentos do que descrever a natureza. Isso se acentua nos títulos das obras “Como é lindo o meu Amor” e “Beija-flor que trouxe o meu Amor”. Eu diria que o tema fundamental na pintura de Viviane - o seu Leitmotiv - é o da incerteza da existência. Ao sobrepor uma tela pintada em um chassi vazio de uma escala bem maior, o significado de liberdade se acentua. O experimento da realidade ocorre no decurso do trabalho, quando a própria realidade é adquirida enquanto se está à procura de valores estéticos.
Não se trata de um figurativismo acadêmico e sim, exatamente, do seu contrário. Isso, na artista, é resultado de uma longa e rigorosa prática de trabalho, que emerge da disponibilidade que ela vem se permitindo atingir.
A artista reitera um certo sentimento romântico e tenta, também pelas palavras, expressar um sentimento de amor e de amor ao próximo. Como se ela abandonasse o mundo mais imediato à sua volta e construísse uma ponte para esse outro mundo. Depois disso, as imagens criadas tornam-se instáveis e atravessam uma ponte entre a natureza e o espírito.
O acúmulo da matéria pictórica, por vezes ignora a pincelada propositalmente, criando uma densidade expressionista. Há uma ansiedade inerente em cada pintura, um quase-drama em que raízes quase-mangue se mostram desenraizadas e se assemelham aos pés dos pássaros que flutuam no ar.
Nessa aparente espontaneidade pictórica, há uma total responsabilidade. E Viviane Teixeira vai da espontaneidade ao rigor da ideia, e da ideia para a tinta — a matéria.
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