TOZ

CICLO
Curadoria: Paula Mesquita
15|03|26 - 18|04|26
De origem grega, a palavra “ciclo” carrega a ideia de processo. Implica duração, transformação, início e término, não como encerramento definitivo, mas como passagem. Cada conclusão contém a possibilidade de recomeço, um movimento que se transforma sem se interromper.
Ao completar cinquenta anos e celebrar três décadas de carreira, Toz atravessa um ciclo. Dos muros da cidade ao espaço expositivo, o artista construiu um vocabulário visual marcado pela cor, pela repetição e pela força das imagens carregadas de experiências pessoais.
Nas novas pinturas e esculturas apresentadas na Galeria Movimento, a forma circular emerge como síntese. Aquilo que antes era personagem se condensa em estrutura. O Vendedor de Alegria, figura que nasceu da observação dos vendedores de bolas na praia e que se tornou um dos símbolos mais reconhecíveis de sua produção, não desaparece: ele se transforma até restar o núcleo formal que o sustentava — o círculo.
Nas telas, campos organizados por linhas vivas e levemente irregulares configuram séries de círculos. Não são circunferências exatas. Há vibração, gesto, insistência. Em meio à repetição, um único círculo preenchido irrompe, carregando padrões e memória cromática, vestígio do que já esteve ali.
A presença desse ponto de diferença desloca o sistema. A continuidade não é homogênea. O processo se compõe de variações, tensões e desvios.
A investigação formal se expande para além da superfície. Os círculos se transformam em esculturas, em formato de meia-esfera, que deixam a tela e ocupam o ambiente. A pintura ganha tridimensionalidade. O círculo torna-se corpo. A imagem, objeto.
Esse movimento é consequência de uma pesquisa que sempre pensou o espaço. Antes do ateliê, houve o muro. Antes da moldura, a cidade. A arte urbana formou em Toz um pensamento espacial direto e expandido.
Ao trabalhar com a repetição do círculo, forma geométrica primordial, o artista estabelece um diálogo com a tradição construtiva brasileira. A organização seriada dessas formas sugere estrutura, mas é na expansão para o espaço que a geometria se desloca para o campo da experiência. Ao abandonar a rigidez do plano e introduzir presença e corpo, a pesquisa aproxima-se de questões centrais ao neoconcretismo, onde a forma deixa de ser apenas construção racional para tornar-se vivência.
Entre repetição e diferença, vazio e cheio, superfície e volume, Ciclo afirma um momento de liberdade. Um artista que revisita sua própria trajetória para extrair dela a forma primordial. Que reconhece seus caminhos e, ao mesmo tempo, abre outros.




