EDU MONTEIRO

SONO DO BEIJA-FLOR
Texto crítico: Luiza Interlenghi
26|08|26 - 26|09|26
Entre dobras, apoios, torções e contraformas, as esculturas de Edu Monteiro investigam o limiar em que a matéria pesada e densa, metáfora do próprio ser, se transfigura e renasce preciosa e vívida. Como na tradição dos antigos ferreiros e da alquimia, o retorno ao escuro primordial se inscreve num registro simbólico e mágico de busca de aprimoramento e revolução – o chumbo transformado em ouro. Na série inédita Saturno e o Sol, Monteiro aproxima opostos: o sombrio devorar do Tempo e a força vital da luz. Com folhas de chumbo apoiadas em traves de madeira desgastadas pelo tempo e projetadas em queda no espaço, desenha uma geometria mole e pesada, pontuada por pequenos triângulos em ouro. O brilho tensiona essas matérias suspensas — entre apoio e queda — desestabilizando sua gravidade.
Traçadas em espaços negativos, no vazio, ou por sobreposições do metal à madeira, recorrentes triangulações evocam um fluxo temporal de longa duração que, finalmente, conduziria ao retorno primordial. Dobras simples – como em Terra, com a folha quadrada de chumbo apoiada na diagonal formando um grande triângulo ou em Dobra do Tempo, um apoio cruzado que desloca as duas faces em novas angulações – apontam para o reencontro com a mãe originária, para a volta da matéria ao seu estado primitivo e para o instante em que, desse retorno, uma nova forma pode renascer.
Essas esculturas são tensionadas por “Tchou pou tèt” [de ponta-cabeça], trabalho realizado durante o retorno de Edu Monteiro à Martinica, no âmbito da residência Vulcões e Territórios. Ilha caribenha de onde emergem vozes fundamentais do pensamento anticolonial — Suzanne e Aimé Césaire, Frantz Fanon, Édouard Glissant —, a Martinica permanece atada à França por uma estrutura neocolonial que, sob a aparência de pertencimento, conserva assimetrias profundas, econômicas, sociais e simbólicas. Ali, o artista transforma um contêiner abandonado na mata em câmera escura: captura em uma pintura a paisagem invertida, devolve-lhe uma imagem virada contra a ordem do mundo e inscreve, no verso, em matinitche, a frase: “a exploração econômica e política da França com a Martinica deve ruir”.
Essa inversão da paisagem dialoga com uma pesquisa anterior em que corpo e floresta se contrapõem simbolicamente às formas de domínio inscritas no contêiner. Em Florestania (2022-2025), na trilha do pensamento de Ailton Krenak, o artista internaliza a descoberta de uma gramática da floresta ao cultivar e observar as plantas do quintal de seu ateliê em Santa Teresa e produzir autorretratos em que fragmentos vegetais tornam-se parte do seu corpo. Esse sentido de reintegração primária — tornar-se floresta como reconstrução de uma subjetividade revolucionária — retorna em Dematê 1 e 2, díptico fotográfico em que, de um lado, as plantas recobrem a face do artista e, de outro, invadem o contêiner, símbolo da dominação econômica da Martinica.
Desde sua pesquisa sobre a Ladja, dança de combate da Martinica, Monteiro investiga objetos escultóricos concebidos inicialmente para o ato fotográfico: formas que inscrevem na imagem a tensão corporal — força e contraforça — e, ao mesmo tempo, mapeiam simbolicamente o jogo social revivido na própria luta. Em Sono do Beija-flor, porém, o ato escultórico conquista autonomia. Entre corporeidade, imagem e símbolo, essas obras sondam a zona obscura e ambivalente entre queda e movimento, matéria e renascimento, como uma indagação sobre o próprio ser. O beija-flor — ou colibri, símbolo da Ladja — é um pássaro veloz, de plumagem iridescente, cujo sono o conduz ao torpor: estado de latência entre a vida e a morte, no qual se sustenta sobre um galho até despertar, lentamente, a cada dia. Assim, entre chumbo e ouro, queda e suspensão, torpor e despertar, Edu Monteiro faz da escultura um campo de transmutação: não a forma fixa de um corpo, mas o instante instável em que a matéria parece prestes a renascer.







