JAN KALÁB

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CALOR
Curadoria Ulisses Carrilho
março/2022

There is a light that never goes out

por Ulisses Carrilho

 

 

Far above the world

Planet Earth is blue, and there's nothing I can do

David Bowie

 

 

"Amo aquele que deseja o impossível".[1] Frente ao caos do mundo, afirmar a poesia da cor e da forma. Num próximo passo, desviar das mesmas. Este texto convida aqueles que, junto ao artista, participam da hercúlea tarefa de emprestar sentido à arte para experimentar tais pinturas a partir do calor. Múltiplos, variados, inconstantes, fabulados, dramáticos, incompreendidos, misteriosos, confusos, ingênuos, aguerridos, desmedidos, sedutores, entusiasmados: muitos são os motivos que levam o indivíduo a criar arte. E igualmente vastas são as suas possibilidades de interpretação daquele que decide deparar-se com uma pintura. Para dar título à mostra, escolhemos uma palavra que, ao alterar uma letra da palavra color – do inglês, cor – torna-se, em língua portuguesa, uma menção ao clima e à temperatura: da energia, daquilo que move o mundo, daquilo que também o destrói. Daquilo que é sentido pelo corpo, daquilo que é produzido por ele. Quando fala-se em história, engana-se quem pensa que narramos uma sucessão de acontecimentos: falo daquilo que sobrevive em nós – apesar de tudo.

 

Este texto está implicado em defender quatro perspectivas que podem orientar um percurso pela mostra, quiçá aguçar a visão, com sorte, criar fome nos olhos do leitor: o desmonte da ideia de autonomia, presente não apenas na interação entre as formas orgânicas que abundam, em intensa relação, aglutinação e justaposição na obra de Jan Kaláb, mas em grande parte das discussões em torno da abstração geométrica e informal no percurso da arte moderna; iluminar a investida pública do artista para entender não apenas a cidade como elemento que informa sua pintura, mas as complexas relações sociais que organizam e confundem o mundo – por ora evitaremos propositadamente o termo graffiti; desviaremos de uma interpretação especulativa das possíveis causas que levam um artista a trabalhar na criação de objetos ao mesmo tempo que na escala agigantada, social e comum da coisa pública para, sobretudo, especular indagações sobre a cor e a forma, lidas no momento do ano de 2022, perguntando-se por quais razões entendemos a obra do artista enquanto produção pertinente para iluminar o estado atual das coisas. É urgente desejar o impossível.

 

Imagina tudo dentro

"Quando comecei a pintar os ossos da pélvis, eu estava mais interessada nos buracos dos ossos – no que eu via através deles", afirmou Georgia O'keeffe, pintora estadunidense que  constitui uma série de pinturas com ossadas da pélvis como espécie de musas. Tal afirmativa da artista ajuda-nos a ressignificar também as formas objetivadas por outros artistas: com um ethos romântico, quiçá pensar nas pinturas não apenas como acúmulo de tinta sobre a superfície de uma tela, mas como espécies de portais especulares, janelas para um fora que não se permite ser visto com facilidade. Pinturas podem ser aberturas por onde podemos, de maneira bastante singular, assistir ao mundo ao passo que estamos todos, artistas ou não, dando forma a ele.

 

Aquele que compreende as formas empreendidas pelo pintor Jan Kaláb como orgânicas certamente não está incorrendo num erro – a bibliografia pregressa[2] sobre a produção do artista já apontou suficientemente tal faceta. Mas a história nos ensina que seus descaminhos são tão relevantes quanto suas pretensas lógicas. Quando digo história, falo sobre o que sobrevive em nós.

 

As formas eleitas pelo artista para sua produção plástica, por meio da abstração,  generosamente possibilitam serem compreendidas e experimentadas desde o contemporâneo por uma série de formas que as antecederam. O interesse pela cor e suas relações é evidente, o que poderia nos levar a Kandinsky e seus estudos de cor realizados a partir da recombinação de formas circulares em correlação. Em tal trabalho, Wassily Kandinsky aplicou camadas de aquarela em anéis concêntricos que se tocam nas bordas, transformando uns aos outros no processo. Esses estudos tinham uma abordagem metódica e sistemática sobre a teoria das cores, que Kandinsky mais tarde usou como professor no Instituto de Cultura Artística de Moscou entre 1920 e 1922 e também na Bauhaus, em Weimar, Alemanha, entre 1923 e 1933. Para Kandinsky, a cor significava mais do que apenas um componente visual de uma imagem, é sua alma.

 

Muito embora a história da arte aponte para tais caminhos, ouso propor outro. Na história do design ou da produção de objetos para consumo massivo, a chamada era do design atômico, alguns especulam que a apropriação visual do átomo ocorrida após as experimentações com as tecnologias em torno da criação da bomba atômica refletiu-se em objetos domésticos como uma forma de domar ansiedades relacionadas ao poder destrutivo das armas atômicas nos anos 1940-1950. Outros acreditam que essa tendência refletia o otimismo em relação às aplicações da ciência atômica como uma promessa de paz. Enquanto os cidadãos do mundo inteiro tentavam lidar com as complexas implicações dessa nova tecnologia, numa iminência distópica do fim da vida humana na Terra, independente da motivação precisa, o surgimento da iconografia nuclear nos domicílios mostra que o átomo – com todas as suas aplicações potenciais – era mais que um modelo científico apartado da vida cotidiana, mas uma imagem-promessa na mente dos sujeitos que viviam este tempo. As formas orgânicas eram outra característica marcante do design da Era Atômica. Esse estilo usava formas inspiradas na natureza para evocar entidades vivas, desde amebas a planetas, passando por células, visões microscópicas e galácticas, formas predominantemente curvilíneas. 

 

Outro indivíduo que ousou apostar por meio da forma como elemento constitutivo da experiência artística foi o escultor Constantin Brancusi – sobretudo com seus trabalhos intitulados “Peixe” (uma pequena peça em bronze, de 1926, e outra mais agigantada, em mármore, de 1930): “Quando você vê um peixe, você não pensa em suas escamas. Você pensa em sua velocidade, seu corpo flutuante e cintilante visto através da água. Tentei expressar exatamente isso. Se fizesse barbatanas e olhos e escamas, eu pararia seu movimento e prenderia você por um padrão, por uma forma de realidade. Eu quero apenas o lampejo de seu espírito”.

 

Provavelmente afetado pelas imagens que rondam as dores de nosso tempo, marcado pela distância e tensão entre os corpos, ao ver algumas das interações entre cor e forma em Kaláb elas parecem ressoar tanto as maiores explosões nucleares quanto as experimentações microscópicas, na escala celular, como formas que acontecem em uma fertilização in vitro. Popularizada pelas técnicas de reprodução assistida, In vitro é uma expressão latina que designa todos os processos biológicos que têm lugar fora dos sistemas vivos, no ambiente controlado e fechado de um laboratório. A arte certamente não é este ambiente, é fortemente marcada pelos regimes sociais – muito embora a opacidade da abstração não nos deixe perceber isso com literalidade. Ver tais formas com olhos livres por ora é tarefa da ordem do impossível. Há os que prefiram microscópios, há os que elejam os pincéis.

 

Tão mitológico quanto literário, é no personagem-título do Fausto de Goethe que está anunciado um desejo que, indiretamente, ressoa o desejo de materializar o impossível na obra do tcheco Jan Kaláb, nascido em 1978, em Praga, na República Tcheca. A técnica empregada pelo artista parece desviar do apreço técnico que busca singularizar cada traço presente no trabalho artístico para ousar campos de cor límpidos, inegavelmente belos. O resultado impressionante da sua tinta sobre tela não aponta para a fatura, para a singularidade ou para a individualidade. Aponta para uma luz que nunca cessa de existir.

 

No dia 24 de fevereiro de 2022, o mês véspera de abertura desta mostra, a Ucrânia, antiga União Soviética, foi invadida pelas forças militares da Rússia, antiga União Soviética. Trata-se portanto de uma história de desintegração: independência e, por que não, autonomia. Nos últimos momentos da edição deste texto, somam-se 15 mil mortes, há aproximadamente 3 milhões de pessoas desalojadas, 1,9 mil pessoas com ferimentos causados pela violência da guerra, já foram destruídas, ao menos, 1,7 mil edificações e são 119 bilhões de dólares calculados em danos às propriedades. Sem distância histórica, vivemos a imprecisão de um tempo marcado por verdades frágeis, dignidades humanas historicamente à prova, uma desmedida e desproporcional atenção empregada para objetos e sujeitos.

 

Os séculos XX e XXI provocaram alterações no que chamamos de lógica – e a arte, infelizmente, não terá como ser a resposta única para tais questões: a explosão da Tsar Bomba em 1961 foi a maior detonação nuclear que já ocorreu na Terra e é talvez o exemplo mais famoso de uma arma de fusão já criada, com um rendimento de 50 megatons que supera em muito qualquer outro já desenvolvido. A temperatura no núcleo do sol é geralmente citada em 15 milhões de graus Celsius. Em algumas detonações de teste termonuclear de tamanho médio feitas pela antiga União Soviética e pelos EUA foram registradas em, ainda que muito brevemente, 200 ou mesmo 300 milhões de graus Celsius. Em janeiro de 2022, um reator de fusão nuclear na China estabeleceu um novo recorde de altas temperaturas, sendo cinco vezes mais quente do que o Sol ao liberar calor durante mais de 17 minutos. O Supercondutor Experimental Avançado Tokamak  (EAST), conhecido como ‘sol artificial’, atingiu temperaturas de 70 milhões de graus Celsius, nas primeiras experiências. Falar sobre o calor é convidar para que percebamos, também por meio da cor e da forma, o que ainda nem ousamos querer saber. Não há outra maneira de encerrar essas linhas introdutórias, que não pretendem muito mais do que gerar fome em seus olhos do que aquelas da poeta brasileira Ana Martins Marques, que em seu “Linha de Rebentação” ousou frear o mundo: "(Espera: estou inventando uma língua para dizer o que preciso.)"

 

 

[1] Goethe. "Fausto"

[2] Ver "Jan Kalab – Point of Space", publicado pela MAGMA Gallery Bologna